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As ruínas de um amor

 

 

Ruínas. Um aroma persistente a queimado. Um espectáculo desolador. O primeiro “chalet” português, a casa que a condessa Elise d’Edla idealizou, desenhou e fez construir pelo mestre Gregório, no século passado, no Parque da Pena, antecipando uma moda que fez sucesso na costa do Estoril e em Cascais, está em escombros. Um" incêndio, de origem criminosa, destruiu o imóvel classificado, o “edifício de interesse público”, que há muito se encontrava num estado de grande degradação e aguardava obras de restauro.

 

Monte de cinzas

 

Estamos a falar de um ex-líbris de Sintra, um dos vários que fizeram Sintra ser classificada pela UNESCO como Paisagem Cultural e Património Mundial. Foi no passado dia 14-07-1999 que o piloto de uma aeronave que sobrevoava a área detectou as chamas, na zona entre a Penha Longa e a Cruz Alta. O tempo enevoado não permitiu de imediato a localização correcta do incêndio, chegando a pensar-se que o fogo era na Abegoaria. Mas os bombeiros não podiam fazer muito numa área em que só a prevenção pode actuar de forma eficaz. Agora, as varandas, os frisos, as ombreiras dos vãos em arco quebrado, os frescos e os estuques, o rendilhado branco do quarto da condessa... são um monte de cinzas eriçadas de pregos, paredes em ruínas, uma memória que, parece, foi preservada em levantamento fotográfico há escassos meses.

 

Chalet da Condessa

 

“Há males que vêm por bem” – Rui Pereira, vereador da Cultura da câmara de Sintra, não aceita a responsabilidade de uma área cuja jurisdição escapa por completo ao controlo do município. Na verdade, a classificação de competências está, nas suas palavras, “perfeitamente definida e não há confusão alguma”. Esta classificação, não só em Sintra como noutros locais, deixa de pertencer às câmaras, subdividindo-se num processo demencial, com organigramas de caricatura e responsabilidades pulverizadas por organismos que se digladiam entre si, lutando com falta de verbas e assanhando-se por verbas exíguas, as pequenas migalhas de um bolo que sabe sempre a esmola. Assim, e no mesmo novelo intricado, encontra-se o Ministério da Cultura, o Ippar, a Direcção-Geral de Florestas, as câmaras (neste caso a de Sintra e a de Cascais) e organizações não-governamentais como por exemplo, e no caso, a Associação dos Amigos de Monserrate.

 

 

“Há dois anos que estamos a estudar e, neste momento, quase a concretizar uma “régie” cooperativa que presida a todas estas entidades, de forma a concertar os organismos com agilidade e a captar os investimentos necessários, que terão de vir não de fundos mas do privado”, afirma o vereador da Cultura.

 

As ruínas de um amor 

Mas uma fonte ligada ao Ministério da Cultura dá-nos conta dos entraves, do ruído surdo da inveja e da intriga, más vontades persistentes que bloqueiam a informação entre instituições, umas vezes em nome de inimizades de estimação, outras de ódios fiéis: “Ao mais alto nível, há pessoas que se detestam a um ponto tal que preferem travar as acções umas ás outras a fazer qualquer coisa pelo bem comum.” Segredo de polichinelo, o nome dos implicados.

 

Mas para além do modelo estalinista da administração pública portuguesa, há com certeza responsabilidades a assacar. O caso do “chalet” da condessa d’Edla é, de resto, paradigmático. Recentemente, Mário Soares tomou chá no palacete, e falou-se muito da sua reconstrução. Mas o Parque da Pena dispõe apenas de cinco funcionários e o orçamento actual do Parque Nacional de Sintra/Cascais é de cinquenta mil contos anuais, verba que neste momento mal chega para limpar caminhos, recuperar muros e portões e realizar algumas intervenções nos jardins e na mata.

 

“É lamentável que o Ippar, que passa a vida a fazer protocolos com o Instituto de Conservação da Natureza e com a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, não tenha arranjado maneira de se entender com as instituições que tutelam o Parque da Pena. Por este andar, a destruição e os fogos não vão ficar por aqui”, afirmou-nos fonte ligada a uma destas instituições.

 As ruínas de um amor

 

 

O PARAÍSO ESTÁ A SAQUE

Oficiam missas negras em grutas onde, há muitos séculos, se refugiavam anacoretas cristãos. Sacrificam galinhas, cães, gatos, junto de antigos poços hoje entupidos de terra. Viram cruzes ao contrário, em altares improvisados, ou carregam-nas assim, ao peito, e reclamam-se de seitas variadíssimas. Invocam espíritos da Natureza ou forças das trevas. Fazem “trabalhos”. Brincam aos aprendizes de feiticeiros, inventam iniciações ou repetem outras que já foram inventadas há muito. Uns, discretos, silenciosos, a actuar nas sombras. Outros, barulhentos, deixando atrás de si uma esteira de garrafas de “vodka” vazias, ao som de música amplificada de modo a ser ouvida noutros planetas.

 

Em Sintra, na serra da Lua, o pára-raios do ocultismo continua activo, e a atrair de tudo. Basicamente, a evidenciar o abandono trágico de uma pedra basilar do património cultural português e um analfabetismo de raiz que permite todos os abusos. Por mais pergaminhos que reclamem discípulos de Crowley ou seguidores do Pequeno Povo Negro, adeptos da Ordem do Cão ou adoradores de Satã. “Eram aí umas quatro raparigas. Por volta dos 17, 18 anos. De camisa de noite, transparente e sem nada por baixo. Estavam próximo da Igreja de Santa Eufêmia, a acender uma velas e a fazer rodinhas. Diziam-se as Seguidoras do Pequeno Povo Negro, e a sua linha entroncava directamente nos livros do Tolkien, nomeadamente na “Trilogia do Senhor dos Anéis”. Mais tarde viemos a conhecer algumas membras deste... culto? É gente dos lados de Caneças”, conta Ilda Carreiras, professora de Físico-Químicas e uma apaixonada por Sintra, a que a ligam, de resto, outros laços, como acaba por revelar-nos.

 

Do mal o menos: apesar da ligação potencialmente perigosa entre velas e árvores, não é por causa de jovens seminuas que gostam de Tolkien e inventam um folclore élfico para Sintra que vem mal à serra. Recentemente, na Quinta da Regaleira, outras senhoras foram também encontradas quando se banhavam, nuas, num poço, aquele cujas águas passam por milagrosas. Descobertas, fugiram tal como estavam. A história correu a vila – as pessoas não são desconhecidas.

           

Mas estas são as pequenas anedotas de uma realidade menos risível. Para Vitor Manuel Adrião, de 44 anos de idade, professor doutorado em Histórico-Filosóficas, escritor com vários livros editados e fundador da Comunidade Teúrgica Portuguesa, o que se passa em Sintra, no segredo da serra mal vigiada, mal protegida e mal-amada, resume-se nesta afirmação primaríssima: “É a luta entre as forças do Bem e as forças do Mal. Entre as Trevas e a Luz.”

 

 

“Já assaltaram a capela, umas quantas vezes. Levaram a santinha. Às vezes põem a música muito alto e andam por aí aos gritos. Há tempos largaram fogo aí no largo, ao pé dos cedros, tiveram que vir os bombeiros. São umas pessoas esquisitas. Droga, não é? E aí fica tudo atulhado de garrafas.” – Maria Adelaide Nogueira que vive, com o marido Joaquim, há 18 anos na casa contígua à Capela de Santa Eufêmia. Ocupa o lugar que antes fora de sua mãe, sem outra remuneração que a própria casa que a paróquia lhe cede. Durante o dia não há ninguém para tomar conta de nada. À noite, são eles os dois: “A gente precisa trabalhar.”

 

Mas estamos a falar de um dos locais de culto mais antigos do país, onde a remotíssima Deusa-Mãe foi venerada, com o nome de Chyntia, pelas sacerdotisas da serra da Lua e de onde emergiu, no sincretismo cristão, em pleno período moçárabe, a portuguesíssima Eufêmia, santa e milagreira. Uma santa cuja atributo é o livro fechado e que partilha os altares com a Senhora do Ó, à esquerda, e São Jerónimo, o Eremita, com o leão aos pés, ao centro, no altar-mor.

 

Agora, esta capela românica que D. Fernando II terá mandado restaurar, edificada no que é considerado o ponto mais antigo de Sintra e onde se constituiu o seu primeiro núcleo civilizacional, enquadrado no Paleolítico Superior, está, durante o dia, entregue a um minúsculo rafeiro, de pêlo fulvo e emissor incansável de latidos.

 

Junto da ermida, encravada na sua parede lateral, à esquerda, encontra-se gradeada uma fonte, cuja água era considerada milagrosa pelo povo da região e curadora de todas as enfermidades corporais, “principalmente da sarna, do fígado e dos corpos chagados”, segundo reza a inscrição na banda desenhada de azulejos, com data de 1787. Mas a fonte das águas santas está fechada e o magnífico terreiro, onde se pode ler numa tabuleta “PRUIBIDO VASAR LIXO”, pouco asseado.

 

A maravilha do Mundo

 

D. Fernando [II] de Saxe Coburgo-Gotha, o “Rei-Iluminado”, amou Sintra como ninguém, e transformou-a no oásis do Romantismo. Em 1838, após a extinção das ordens religiosas, comprou um convento abandonado, na serra, juntamente com as casas e hospedarias juntas e a cerca com terras de semeadura, pinhal e mata, incluindo o Castelo dos Mouros. Tudo por 761 mil réis. Em troca, comprometia-se a cuidar da sua conservação. Foi aí que, de volta do pequeno Convento dos Frades Jerónimos, e sob o seu impulso, surgiu o Palácio da Pena, que tinha por orago uma Virgem Negra “descoberta nas penedias por uma pastorinha de cabras brancas”, segundo a lenda.

 

Estávamos em 1840. Mais tarde, e por morte do rei, esta propriedade ficou na posse da sua segunda esposa, a condessa d’Edla, que a vendeu ao Estado por 310 contos.

 

A serra, tal como hoje se conhece, romântica e pintada em todas as declinações cromáticas do verde, surgiu pela acção destas duas figuras, que a inscreveram num roteiro mundial. Era “A oitava Maravilha do Mundo”, nas palavras de Armand Dyot, a “Terra encantada”, de George Burrow, “o mais abençoado torrão de todo o mundo habitável”, para Robert Southey, e até Lord Byron, tão venenoso a escrever sobre Portugal, se rende: “Éden glorioso! Sintra é o sítio mais bonito do mundo.” E Richard Strauss afirmou: “Este é o verdadeiro Jardim de Klingsor – e lá no alto está o Palácio do Santo Graal.”

 

De facto, D. Fernando de Saxe Coburgo-Gotha recriou, nos jardins do palácio, que implicam o Castelo dos Mouros, o simbolismo wagneriano do teatro iniciático de Lohengrin e Parsifal.

 

Mas tomar conta de tanta beleza custa os olhos da cara. E as diversas tutelas nem sempre se entendem entre si. A começar pelos Serviços Florestais, onde recentemente se assistiu a um lamentável braço-de-ferro, com os turistas, fechados dentro do palácio, utilizados como moeda de troca reivindicativa.

 

“O verdadeiro ex-líbris da desgraça. E se formos a pedir contas, passam todos a batata quente uns para os outros”, diz Vitor Manuel Adrião, autor de «Sintra, Serra Sagrada» e de «Quinta da Regaleira, a Mansão Filosofal de Sintra», cicerone num périplo onde, para além do espectáculo desolador do “chalet” destruído pelo fogo, nos aponta outros vestígios de um vandalismo quase sistemático.

 

No Bosque da Penha, na clareira tradicionalmente chamada “dos druidas” ou, como ele frisa, “mais esotericamente, do Graal”, uma pedra de ara druídica foi derrubada do seu suporte milenar.

 

As ruínas de um amor 

             

Destruir e construir

 

Com cordas, a poder de músculo, boa vontade e determinação, a pedra voltou ao lugar. Oito pessoas apareceram no parque, de propósito para esse efeito.

 

Mas vai ser preciso mais do que cordas e boas vontades para evitar que se continue a profanar a Gruta do Monge, a anta-oratório onde, no século XVI, se recolheu o anacoreta Frei João Fernandes, para restaurar o Convento dos Capuchos, de paredes a ruírem, continuamente assaltado, e para erguer dos escombros o “chalet” da condessa d’Edla, para recolocar a Cruz Alta e impedir a ruína total de outros edifícios espalhados pelo parque. Um parque onde as Feteiras da Condessa e as Feteiras da Rainha D. Amélia estão em total abandono. Também, dos setenta jardineiros que tinha na altura da Revolução, está hoje reduzido a uns cinco...

 

SEMANÁRIO O INDEPENDENTE de 23 DE JULHO DE 1999

Condessa Edla